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30 de Maio de 2020

O caso Iasmin e o crime de não chorar em público

Artigo originalmente publicado no jurinews.com.br em abril de 2018, sobre um crime que chocou o Rio Grande do Norte.

Emanuel de Holanda Grilo, Advogado
há 2 meses

Em Rei Lear, Shakespeare diz que “Nem tampouco sentirão menos as pessoas cuja voz grave não ressoa no vazio”, afirmando haver sentimentos sinceros também naqueles que não os demonstram em público.

A assimilação pelo senso comum do sentindo oposto ao da citação acima revela um dos sintomas da indigência moral de nossos dias, e isso explica o motivo pelo qual a opinião pública comprou com tanta facilidade a infundada afirmação de que a mãe da menina Iasmin teria sido coautora de seu assassínio.

O enredo da tragédia já é do conhecimento de todos os potiguares:

Desaparecida em 28 de março do ano corrente, o corpo da criança foi encontrado quase um mês depois, enterrado em uma construção há poucos metros da casa onde morava com sua família.

A afirmação do assassino, capturado dias após o corpo ter sido encontrado, segundo a qual a mãe da menina teria tido participado do crime, tomada instantaneamente como verdadeira, quase ensejou outra tragédia.

Indômitos, “justiceiros” – entre os quais muito provavelmente se encontravam alguns que negligenciam a criação dos próprios filhos – se reuniram na frente da casa da mãe de Iasmin com o evidente propósito de linchá-la.

Não fosse a exemplar atuação da Polícia Militar, que demoveu os potenciais linchadores de seus propósitos, possivelmente estaríamos lamentando a precipitação daqueles que, tomando por verdadeira uma acusação posteriormente desmentida, atentaram contra a vida da mãe da vítima.

O fato que chama atenção, no entanto, e justifica a citação contida no primeiro parágrafo deste texto, é o juízo de valor sobre a mãe da menina Iasmin, reiteradamente “acusada” nas redes sociais e em comentários de mesas de bar de ser “muito fria”, já que em momento algum apareceu publicamente em prantos.

O que, há algumas décadas, seria tomado como sinal de comedimento e força foi interpretado desde o início como evidência de que algo não estava certo com a mãe da vítima.

O estranhamento gerado pela discrição da mãe da menina, como se Shakespeare estivesse errado e não houvesse sentimento algum naquele “cuja voz grave não ressoa no vazio”, preparou o terreno para que levianas acusações fossem proferidas contra sua pessoa.

Isso tudo pelo fato da mulher ter contido o pranto em público, como se as lágrimas fossem sinônimo de inocência e vice-versa, critério que, caso fosse verdadeiro, teria revelado, por exemplo, a inocência de Suzane Von Richtoffen, aparentemente sempre tão abatida e comovida com a morte dos pais ao aparecer no noticiário.

Dona Ingrid, mãe da menina Iasmin, sentiu na pele o que Mersault, em “O estrangeiro” sentiu ao ser acusado de ter “sepultado a mãe com o coração de um criminoso”, haja vista não ter chorado no velório daquela que o deu a luz.

Funesto sintoma do mal moral que acomete a sociedade é esse que enxerga a dor contida e silenciosa quase como um crime. Não basta sofrer, tem que expor o sofrimento publicamente.

Os recentes episódios que ilustram o caso mencionado demonstram que, infelizmente, não só as vítimas dos criminosos que morrem, mas o próprio bom senso falece todos os dias.

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